Quando uma empresa afirma se importar com a saúde mental, mas age de forma desumana e traumática, fica evidente que esse compromisso é mais retórico do que real. O discurso do cuidado não se sustenta quando, na prática, decisões organizacionais produzem sofrimento psíquico profundo e evitável. O que se observa, nesses casos, é uma dissociação grave entre os valores declarados e as ações concretas.
Chama atenção, também, a situação imposta aos profissionais de saúde mental que são obrigados a atuar de acordo com a lógica da empresa. Muitas vezes, sua atuação se limita à aplicação de questionários superficiais — “testezinhos” de clima organizacional, pesquisas rápidas de engajamento ou de bem-estar — que geram gráficos, indicadores e relatórios esteticamente bem apresentados. Esses instrumentos, embora possam ter algum valor diagnóstico inicial, tornam-se vazios quando não há, por parte da gestão, disposição ética e institucional para analisar, avaliar e aprofundar os efeitos reais das práticas empresariais sobre a vida dos trabalhadores.
Quando uma demissão ocorre em um momento simbólico e emocionalmente sensível, como a véspera de Natal, não se trata apenas de um “evento administrativo”. Trata-se de uma ruptura que atinge a identidade, a autoestima, o senso de pertencimento e a dignidade humana. É nesse ponto que a omissão se revela: a empresa sequer questiona os impactos psíquicos dessas decisões que resultam numa verdadeira violência institucional.
Não há um real aprofundamento sobre a desconstrução interna que ocorre quando um trabalhador é descartado de forma fria e simbólica. Ignoram-se o luto psíquico, o sentimento de desvalor, a vergonha social, o medo do futuro e o adoecimento mental que pode se instalar. O silêncio e a omissão ética transformam o cuidado com a saúde mental em uma encenação — algo que existe nos manuais da empresa, mas não na vida real.
Nesse cenário, normas como a NR-1, ao reconhecerem os riscos psicossociais no trabalho, tornam-se relevantes não apenas pelo seu peso legal, mas por exporem uma contradição estrutural: não é possível falar em saúde mental sem revisar práticas organizacionais que produzem sofrimento. Sem essa coerência, qualquer discurso de bem-estar seguirá sendo apenas um enfeite institucional, incapaz de proteger quem, de fato, sustenta a empresa com seu trabalho e sua vida.
Assessoria de Comunicação
26/12/2025 12:10:51

